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Perfeição digital

Martha Medeiros

Escolha qualquer mulher que esteja numa capa de revista. Ela estará nada menos do que linda. Nenhuma mancha no rosto, nenhuma estria na barriga, celulite nem pensar. Um desaforo. Aí a gente se olha no espelho e diz: alguma coisa está errada. Está. Mas não é com a gente, relaxe. Ser imperfeita tem um certo charme, e vai ter cada vez mais, aposte nisso como tendência.

Estamos vivendo a era Lara Croft. Nos jogos de computador, nas revistas, no cinema: o ser humano está sendo constantemente retocado. Manipulações fotográficas compõem um novo lábio, uma nova cintura, um novo queixo. A palavra manipulação parece pejorativa, mas neste caso não é. É trabalho. Exigência do mercado. Qualquer estúdio fotográfico sabe do que estamos falando aqui: da transformação da realidade em mera fantasia. Gente desenhada. A busca da harmonia onde ela não existe, ou não existia, antes de passar pelo computador. Obras-primas criadas com o mouse.

A fotografia sempre serviu à ilusão. Mas estamos hoje tão seduzidos por esse patamar estético irreal que tornou-se inevitável que uma certa angústia se instale. Por mais que nos esforcemos, nunca seremos impecáveis, nunca atingiremos o mesmo ideal de beleza alcançado pelos criadores de imagens. Se quisermos nos espelhar no que temos visto, não bastará um maquiador e um cabelereiro, precisaremos contratar um diretor de arte.

Isso está tão assimilado que a cantora e apresentadora de tevê Babi, em recente passagem pelo Rio Grande do Sul, fez questão de dizer, em entrevistas, que as fotos que fez pra Playboy não tiveram a ajuda do photoshop (poderoso software que redesenha tudo). Ela só autorizou que retirassem suas olheiras, já que fotografou muito cedo de manhã. Que espetáculo, sem olheiras! Sonho com o dia em que seja autorizado o uso do photoshop para fotos 3x4, carteira de identidade e passaporte.

Autenticidade, hoje, só na natureza. Ninguém reclama da cor do mar, ninguém acha que o sol está gordinho ou que a chuva está fora dos padrões. No reino animal, o mesmo respeito. Ninguém ri do pescoço da girafa, e o sapo é um desastre estético, mas ninguém lhe sugere uma lipo ou um lifting. Iguanas, hipopótamos, chimpanzés: todos são aceitos exatamente como são, e suas imperfeições são os detalhes que os tornam diferentes uns dos outros.

Conosco não tem esta condescendência. Se temos um nariz torto, é deste nariz torto que sairão todas as piadas a nosso respeito. Foi-se o tempo em que as imperfeições eram o atributo humano indispensável para sermos considerados exatamente isso: humanos.


Domingo, 19 de outubro de 2003.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.